Devaneios do dia a dia
Um olhar sobre o cotidiano, com pitadas de humor, afeto e um toque de absurdo. 42 correspondências até agora.
De zero a dez
Comprei um parafuso de quarenta centavos e no dia seguinte me pediram para avaliar a experiência. Uma crônica ácida sobre o mundo que virou uma pesquisa de satisfação sem fim, onde tudo, até a consulta que deu ruim, termina com uma carinha de zero a dez.
Queria que o meu time jogasse sujo
A Argentina faz cera, joga no limite do desleal e, acima de tudo, se recusa a perder. Mais uma virada, mais uma final. Uma crônica-confissão sobre admirar essa fome, envergonhar-se de um Brasil morno e desconectado, e ter orgulho do meu Athletico, o time mais argentino entre os brasileiros.
Eu, minha esposa e as cheerleaders de Dallas
Sou homem, hetero, e um documentário sobre as cheerleaders dos Dallas Cowboys não foi feito para mim. Mesmo assim assisti tudo, no sofá com a minha esposa, torcendo como quem torce em final de campeonato. Uma crônica sobre gostar, sem pedir licença, daquilo que a gente jurava que não ia gostar.
O áudio de três minutos
São sete da manhã e a barrinha cinza avança devagar, sem pedir licença. Três minutos e doze segundos de alguém que preferiu falar a escrever. Uma crônica ácida (e meio culpada) sobre quem manda áudio e sobre a gente, que ouve.
O aplauso que doeu
Sou brasileiro e torço pelo Brasil. Mas tenho um cantinho do peito que bate pela Argentina, herança de família e de um tio muito especial. Quando eles viraram o jogo contra o Egito, eu aplaudi. E doeu, de saudade e de vergonha da nossa seleção.
A correspondência recomeça
O último texto por aqui foi em outubro. Nove meses depois, o Cotidiamenidades volta, e volta de cara nova. Uma carta sobre sumir, reconstruir do zero e o gosto teimoso de recomeçar.
A sacola das sacolas
Toda casa tem uma. Aquela sacola cheia de outras sacolas, guardada num canto do armário, esperando um dia que quase nunca chega. Uma crônica sobre pequenas economias, heranças invisíveis e o carinho que cabe num saco plástico.
Obrigado, Noruega
O Brasil caiu na Copa, eliminado pela Noruega, e o país amanheceu de luto. Eu amanheci diferente. Uma crônica ácida (e agradecida) sobre a derrota de ontem, o alívio de hoje, e o fim de uma era que custou a acabar.
A impressora que nunca queria ser configurada
Cabo conectado, drivers instalados, manual na mão. Nada funciona. Configurar impressora nunca foi técnica: sempre foi ritual.
O computador que sempre escolhia a pior hora para se atualizar
O prazo apertava, o e-mail era urgente, a reunião já tinha começado. E o computador decidiu se atualizar. Uma crônica absurda sobre barras de progresso e crueldade digital.
A mudança que mudou de ideia
Caixas, fitas e caos. A mudança sempre esconde o que importa e embala com carinho o que ninguém precisa. Uma crônica absurda sobre o ritual cansativo de trocar de endereço.
O violino que sonhava em ser rockstar
O violino se infiltrou numa banda de hardcore para realizar o sonho de ser rockstar. Mas a sonoridade não batia. Uma crônica absurda sobre instrumentos deslocados e ruídos desajustados.
A dor nas costas que virou atração principal
Era para ser um festival de música. Mas quem brilhou mesmo foi a dor nas costas, que virou headliner, roubou a cena e fez o público pensar em cadeira de praia.
A tela que nunca ficava satisfeita
O pintor tentava pintar, mas a tela sempre mudava de ideia. As cores se moviam, as formas se desfaziam. Uma crônica absurda sobre arte, caos e telas insatisfeitas.
O despertador que se achava motivador
Trocar o som do despertador parecia uma boa ideia, até ele começar a agir como coach de vida. Uma crônica absurda sobre manhãs, motivação indevida e a luta para não acordar otimista demais.
Texto sobre nada
Tem dias em que a inspiração simplesmente não aparece. E tudo bem. Uma crônica pessoal sobre escrever, travar e aceitar que o nada também rende história.
A impressora que se recusava a imprimir más notícias
Tudo começou com uma rescisão que não saiu do papel. Literalmente. Uma crônica absurda sobre uma impressora que decidiu não compactuar mais com más notícias no ambiente de trabalho
A torradeira que fazia terapia
Tudo parecia normal, até que a torrada saiu queimada e o café ficou com gosto de abandono. Uma crônica absurda (ou nem tanto) sobre eletrodomésticos cansados e a necessidade universal de cuidado.
O gato que trabalhava em home office
Era só mais um pet no home office, até que começou a organizar planilhas, participar de reuniões e virar o funcionário mais eficiente da empresa. Uma crônica absurda (e quase real) sobre produtividade, bichos e videoconferências.
A senhora que fazia jantares para pessoas imaginárias
Uma senhora põe a mesa toda semana para quem só ela vê. Fantasmas, versões antigas, amores passados. Talvez solidão, talvez lucidez. Uma crônica sobre presença e afeto no vazio.
O bairro onde todo mundo falava ‘bom dia’ mas ninguém se conhecia
Todo mundo dizia bom dia, ninguém sabia o nome de ninguém. Uma crônica sobre um bairro educado demais pra ser real.
A moça que mudava de personalidade toda vez que trocava de senha
Trocar de senha virou um estilo de vida. E ela que o diga: a cada nova combinação, surgia uma nova personalidade. Uma crônica tragicômica sobre identidade e colapso digital.
O homem que tentou seguir todas as metas no mesmo dia
Tentou cumprir todas as metas possíveis em um único dia. Teve suco detox, yoga, curso online e pix pra ONG. Terminou chorando no chuveiro com um panetone vencido.
O elevador que só subia quando elogiado
Um elevador que só sobe quando elogiado vira o centro da convivência num prédio onde ninguém se falava. Entre espelhos e frases gentis, a vaidade virou método de transporte.
Reflexões na fila de um hospital público
Crônica de Evandro Ferreira Florscuk sobre uma manhã de exames no hospital público onde se trata há 17 anos. Um relato humano, sensível e necessário.
A mulher que transformou o TOC em religião
Uma mulher com transtorno obsessivo-compulsivo acaba transformando suas manias em rituais diários. Sem querer, funda uma religião baseada na repetição, simetria e controle absoluto.
O cara que colecionava pedidos de desculpa
A crônica retrata um personagem que transforma o ato de desculpar em um hábito metódico de arquivamento. Ele não perdoa nem confronta: apenas coleciona. De cadernos a e-mails, constrói um museu afetivo das dores que recebeu. Até o dia em que, sem esquecer, decide parar de guardar.
Made in Gene
Num futuro onde todos nascem por inseminação, jovens brasileiros exigem cidadania com base em pais biológicos do Canadá, Suécia e Islândia. Uma crônica absurdamente sarcástica sobre imigração, genética e o colapso do bom senso.
O rapaz que virou a própria boçalidade
Era só um cara meio metido. Mas um dia, a boçalidade dele cresceu tanto que passou a andar sozinha. A personalidade virou sombra. E ele, figurante. Uma crônica cômica e exagerada sobre o ego que infla, se solta e começa a falar por você.
A consulta que arrancou mais do que um dente
Ele só queria tratar uma cárie. Saiu com metade da cara dormente, três boletos e uma nova fobia. Uma crônica absurda e sarcástica sobre consultas dentárias que arrancam mais que dentes.
Tudo que é sólido desmancha no ar
A frase “tudo que é sólido desmancha no ar” ganhou forma literal quando o sofá do narrador sumiu. Depois foi a geladeira, a estante, uma tia. Em meio à instabilidade da vida moderna, o absurdo vai se acumulando até sobrar apenas o café, e a escrita. Uma crônica cômica, irônica e surreal sobre aquilo que insiste em evaporar.
A garota que decidiu parar o tempo com fita crepe
Cansada das ordens da rotina, ela colou fita crepe no ponteiro do relógio. E o tempo parou. Tudo congelou: broncas, cachorros, leite fervendo e até os passarinhos. Mas parar o tempo também significa ficar sozinha nele. Uma crônica divertida e sensível sobre a vontade de estagnar o mundo e o valor das coisas que seguem.
Desde 1987
Jean nasceu em uma madrugada gelada de junho em Curitiba e passou parte da vida tentando decifrar a cidade. Morou em Brisbane, morou no Rio, reaprendeu a viver sob outros céus. Mas um dia voltou. E descobriu que talvez nunca tivesse realmente saído. Uma crônica afetuosa, absurda e cheia de silêncios sobre reencontros com o lugar que sempre esteve ali, mesmo quando a gente não estava.
A mulher que enviava cartas para o futuro
Ela escrevia cartas destinadas ao futuro: “Abrir quando esquecer quem é”, “Abrir em 2041”. E, um dia, o futuro respondeu. A troca de correspondência virou hábito até que o silêncio chegou. Então, ela percebeu: talvez fosse sua vez de ser o futuro de alguém. Uma crônica sobre memória, tempo, afeto e os absurdos bonitos que a vida pode inventar.
A vizinha que conversava com os pombos
Dona Lurdes falava com pombos todas as manhãs. Reclamava como quem cobra taxa de condomínio. Até que, um dia, um deles respondeu. A partir daí, os pombos se organizaram: viraram entregadores, políticos e líderes de movimentos. Mas quando sumiram, restou o silêncio. E a vizinha… que agora conversa com fios elétricos. Uma crônica bem-humorada sobre escuta, absurdo e caos urbano.
O homem que atendeu um trote de 1997
Um homem começa a receber trotes de madrugada. Até aí, tudo bem. O problema é que a voz do outro lado da linha é a dele mesmo aos 11 anos. Conforme as ligações se repetem, o absurdo cresce, o passado retorna e uma verdade esquecida bate à porta, ou melhor, toca o telefone. Uma crônica sobre infância, saudade e a ligação inevitável com quem a gente foi.
O relógio que se adiantava só para atrapalhar
Ele nunca se atrasava. Mas seu relógio vivia se adiantando sozinho. Dez minutos, depois trinta, depois dias. Começou a chegar antes dos compromissos existirem. Uma crônica sobre viver fora do tempo, e ainda rir disso pra não surtar.
O homem que procurava sabe-se lá o quê
Ele não queria mais procurar, mas também não sabia como parar. Seguiu em busca de respostas, mas encontrou bugigangas emocionais, pedras silenciosas e promessas de sucesso em 6 passos. Uma crônica absurda sobre os vazios que a gente insiste em encher.
A casa onde ainda moro
Ele voltou à antiga casa, achando que ia encarar só lembranças. Mas encontrou paredes ofendidas, tomadas julgadoras e o sofá ainda carregando mágoas. Uma crônica sobre o peso do passado com pitadas de humor e ironia.
Sobre o homem que parou de piscar
Ele só queria mudar de vida e escolheu parar de piscar. O que era uma decisão pessoal virou moda, depois culto, depois problema nacional. Uma crônica sobre o absurdo da transformação em massa (e o preço de uma piscadela).
A fila que crescia para dentro
Começou como uma fila comum de mercado. Mas com o tempo, virou cidade, depois país, depois casa. As pessoas passaram a viver ali, esqueceram o que vieram buscar e criaram uma nova sociedade, até que alguém saiu… e não entendeu mais o mundo real. Uma crônica sobre o absurdo de se acostumar com a espera.
Café sem açúcar e verdades sem filtro
Numa padaria qualquer, o café começou a ser servido sem açúcar, mas com verdades. Goles amargos que revelavam o que ninguém queria ouvir, mas talvez precisasse. Uma crônica sobre a doçura que a gente usa pra esconder o óbvio.
