A consulta que arrancou mais do que um dente
07 de julho de 2025

Uma crônica sobre cáries, julgamentos silenciosos e boletos anestesiados
Ele só queria resolver uma cárie. Um buraquinho. Minúsculo. Daqueles que o YouTube garante que dá pra curar com óleo de coco e pensamento positivo.
Mas, como era adulto responsável, ligou, marcou e compareceu. Recepcionista fria como molde de gesso. Revistas velhas. A trilha sonora era um mix de Enya com broca de alta rotação ao fundo. Ambiente ideal para perder a fé na humanidade.
Chamaram seu nome como se estivessem convocando alguém para a forca. Entrou.
A cadeira reclinou sozinha. A luz veio direto nos olhos. A partir dali, ele deixou de ser um sujeito com CPF e virou apenas uma arcada para ser julgada.
Enquanto enfiava espelhos e ganchos que pareciam ferramentas de açougueiro, o dentista soltou a pergunta mais incômoda da tarde: se ele andava estressado.
Ele tentou responder, mas só conseguiu emitir um barulho semelhante a um pato afogado. Isso foi interpretado como um sim.
O dentista então começou a palestra motivacional. Explicou que cada dente diz muito sobre a pessoa. Que o canino revela instinto. O pré-molar, ansiedade reprimida. E aquele dente do juízo, coitado, só confirma que ele fez terapia por Zoom e largou no terceiro mês.
Enquanto a broca girava como um tornado nervoso, veio o sermão: Você mente quando diz que usa fio dental. Seu esmalte está emocionalmente comprometido.s
“Seu tártaro tem mais camadas do que sua existência”
Em algum momento, ele perdeu a noção de tempo. Começou a rever memórias da infância, repensar escolhas de carreira e jurou ter visto sua avó falecida sentada na bancada de utensílios.
Quando terminou, o dentista disse que precisaria fazer um plano de tratamento em sete etapas. Cada etapa correspondia a um ano fiscal. O orçamento cabia em um único envelope, mas ocupava o espaço emocional de um financiamento imobiliário.
Na saída, a recepcionista perguntou se ele queria agendar o retorno. Ele disse que sim, claro. Para 2086.
Voltou pra casa sem a cárie resolvida. Mas com uma crise existencial, três boletos parcelados e um sentimento novo: Medo de escovar os dentes errado e ser julgado pelo espelho.
