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Crônica · Correio literário

A garota que decidiu parar o tempo com fita crepe

Uma crônica sobre o tempo, fita crepe e o absurdo de querer que tudo pare quando a gente ainda não sabe bem como continuar

Foi depois da terceira bronca seguida que ela teve a ideia.

“Hora de escovar os dentes.”

“Hora de desligar a TV.”

“Hora de dormir.”

Tudo era hora. Mas e se a hora… não passasse?

Pegou a fita crepe da gaveta de artes da escola.

Subiu no banquinho da cozinha, alcançou o relógio da parede da sala e colou uma tirinha bem firme no ponteiro dos minutos.

“Pronto. Agora ninguém me tira do desenho animado.”

Funcionou.

O ponteiro ficou preso.

O tempo… também.

A mãe parou no meio da frase.

O cachorro congelou no ar, a caminho do salto.

O leite deixou de ferver.

As broncas sumiram.

Ela comeu biscoito sem ninguém ver, pegou o celular da mãe, viu cinco episódios seguidos do desenho proibido.

Tava tudo ótimo.

“Ela colou o ponteiro do relógio e, por algumas horas, foi a dona do tempo. Mas a eternidade começou a ser meio solitária.”

Tentou soltar a fita.

Nada.

Puxou com força.

Nada.

Desesperada, correu até a rua.

Tudo parado.

Gente parada.

Carros parados.

Passarinhos parados com o bico aberto, tipo nota musical.

Sentou no meio da calçada e chorou.

A fita, que até então era o símbolo da liberdade, agora parecia castigo.

Foi quando ouviu uma voz:

“Ei… você também tá presa aqui?”

Era um menino.

Com um boné virado pra trás e um pirulito na mão congelado pela metade.

“Também tentei parar o tempo uma vez. Usei Super Bonder. Não recomendo.”

Eles riram.

Ou quase riram, ainda estavam em meio tempo, afinal.

Juntos, começaram a puxar o ponteiro.

Com calma.

Com conversa.

Com promessas de que não precisavam acelerar, mas que também não dava pra ficar parados pra sempre.

E o tempo, sensível como ele só, pareceu escutar.

O ponteiro andou.

A cidade voltou.

O cachorro caiu no chão e seguiu correndo como se nada.

Ela olhou pro relógio.

Ainda era hora de escovar os dentes.

Mas, dessa vez, foi por vontade própria.