Café sem açúcar e verdades sem filtro
08 de junho de 2025

Um café sem açúcar, uma padaria comum e uma enxurrada de verdades que ninguém pediu, mas talvez precisasse ouvir.
Dizem que o café sem açúcar revela o verdadeiro sabor do grão. Na minha rua, ele revela um pouco mais.
Tudo começou num dia comum, desses em que o sono pesa mais que a vontade de existir. Entrei na padaria da esquina e pedi um café. A atendente, sorridente demais para alguém que acorda às cinco, avisou:
Nosso café de hoje tá sem açúcar. Mas… com verdade.
Sorri sem entender. Dei o primeiro gole e, de repente, ouvi uma voz, não da moça, nem da TV ligada na Ana Maria. Era uma voz interna. Só que em viva-voz.
Você não gosta do seu trabalho. Só continua porque tem medo de tentar outra coisa.
Olhei em volta, achando que alguém tinha dito aquilo. Ninguém. Outro gole:
E aquela amizade que você insiste em manter? Já morreu faz tempo. Você só tem apego à lembrança.
Tentei cuspir, mas o gole já tinha descido. Pedi um pão na chapa pra disfarçar. A moça voltou, simpática como se nada estivesse acontecendo.
Quer com manteiga ou com memória reprimida?
Naquela padaria, o café amargo servia de cana
Cada gole, uma verdade crua, dessas que a gente empurra com açúcar desde a adolescência.
Vi um homem sair chorando depois do expresso. Uma mulher sorriu aliviada ao terminar o cappuccino e dizer “é verdade, eu nunca amei ele”. Um menino derrubou o copo e, antes que caísse, gritou “não fui eu que quebrei o vaso da vovó!”
Dizem que o dono da padaria era psicólogo. Que cansou de ouvir. Resolveu servir.
Passei a ir lá toda segunda. Me ajudava mais que terapia. Até o dia em que pedi adoçante e a atendente franziu a testa.
Adoçante, não. Aqui a gente serve o amargo. E se quiser doce… tem bolo. Mas é de cenoura. Sem cobertura.
Desde então, aprendi. Às vezes, tudo que a gente precisa é de um gole amargo e uma frase honesta. O resto, a gente digere depois.
