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Crônica · Correio literário

De zero a dez

Sobre o mundo que quer saber, numa escala de zero a dez, se você recomendaria

Comprei um parafuso. Um parafuso de aço, quarenta centavos, desses que a gente compra três e usa um. No dia seguinte chegou o e-mail. “Numa escala de zero a dez, qual a probabilidade de você recomendar este parafuso a um amigo ou familiar?”

Fiquei olhando pra tela. Tentei imaginar a cena. Um amigo meu, em crise, ligando de madrugada, e eu, sereno, dizendo que precisava falar de um parafuso.

Dei sete. Por covardia. Zero parecia grosseria com o parafuso, que não tinha culpa de nada. Dez parecia compromisso, e eu não estava pronto pra me comprometer publicamente com uma peça de ferragem.

O mundo virou uma pesquisa de satisfação, e ninguém me perguntou se eu queria responder.

O pão da padaria agora vem com QR code. Você escaneia e ele quer saber se a experiência foi excelente, boa, regular ou ruim. É pão. Eu quero comer, não avaliar. Mas lá estou eu, sete da manhã, dando nota a um pão francês como se fosse um professor rígido, e o pão, um aluno tenso esperando o boletim.

O motorista implora cinco estrelas antes mesmo de dar a partida. O dentista, depois de me cobrar uma pequena hipoteca, manda a pesquisa perguntando se eu indicaria o consultório. Indicaria. Pra quem eu não gosto, quem sabe.

No hospital foi o auge. Saí da sala com um diagnóstico que ninguém quer, o médico com a voz mais baixa que o normal, a receita tremendo um pouco na minha mão. No corredor, um totem com uma tela. Uma carinha verde, uma amarela, uma vermelha. “Como você avalia o seu atendimento de hoje?” Fiquei ali, entre a notícia e a carinha, sem saber que botão aperta quem acabou de levar a vida numa dobra. Apertei a amarela. Não pela médica, que foi um anjo. Pela pergunta.

Aí a coisa começou a se dobrar sobre si mesma. O aplicativo me pediu pra avaliar o aplicativo. A pesquisa terminou com uma pergunta sobre a pesquisa. “De zero a dez, quão satisfeito você ficou com esta pesquisa de satisfação?” Dei dez, com medo de gerar uma terceira.

“Um dia inteiro dando nota pro mundo, e ninguém nunca me perguntou como eu, de zero a dez, estava.”

Sonhei que morria. Chegava lá em cima, aquela luz, aquele silêncio de séculos. E antes do São Pedro, antes do julgamento, antes de qualquer coisa, uma voz suave, de central de atendimento. “Numa escala de zero a dez, qual a probabilidade de você recomendar a vida a um amigo ou familiar?”

Acordei suando. Peguei o celular por reflexo. Três pesquisas de satisfação não respondidas. Uma delas do parafuso, cobrando.

Ainda não recomendei o parafuso. Nem a vida. Nas duas, sinceramente, eu ando num sete. Funciona, aperta o que precisa apertar, mas de vez em quando range, e ninguém, em lugar nenhum, oferece reembolso.