Eu, minha esposa e as cheerleaders de Dallas
14 de julho de 2026

Sobre torcer, com o coração apertado, por uma menina fazendo espacate no ar
Foi a minha esposa quem pôs pra rodar. Eu estava ali do lado, com o celular na mão, já preparado para fazer o que todo homem faz quando a esposa escolhe a série: assistir de canto de olho, dar dois palpites de fachada e cochilar na terceira cena.
O nome era America’s Sweethearts. Um documentário da Netflix sobre as cheerleaders dos Dallas Cowboys. Ou seja: sobre as moças de pompom do time de futebol americano mais famoso dos Estados Unidos.
Eu olhei aquilo e pensei, com toda a sinceridade de um homem de bem: isto aqui não foi feito para mim. Não é a minha praia, não é a minha realidade, não é nada que me diga respeito. Vou dormir em quinze minutos.
Dormi coisa nenhuma. Assisti tudo. E no último episódio eu estava sentado na beirada do sofá, tenso, torcendo por uma menina de vinte anos que eu não conhecia, para ela passar num corte que não muda em nada a minha vida.
Não sei em que momento eu me perdi. Mas me perdi bonito.
Porque o que eu achava que era um desfile de sorrisos e purpurina é, na real, um campeonato. As meninas passam por uma seletiva que faz o vestibular parecer brincadeira de criança. Treinam até o corpo reclamar. Fazem aquele salto, o espacate no ar que termina com as duas pernas escancaradas batendo no chão, o mesmo salto, cinquenta vezes seguidas, com um sorriso que não pode vacilar nem quando o quadril está pedindo aposentadoria.
E as veteranas, que já são do time, têm que fazer a seletiva de novo. Todo ano. Ninguém tem lugar garantido. Imagina você reprovar no seu emprego todo mês de janeiro e ter que ser recontratado no suor, na frente das câmeras, com um recorte de estrelinhas no colete.
“Eu sentei pra derreter o cérebro. E acabei respeitando aquilo mais do que muita coisa que levo a sério.”
Foi aí que a ficha caiu: aquelas moças são atletas. Atletas de verdade, de alto rendimento, com dieta, fisioterapeuta e lesão de joelho. Só que ninguém as chama assim, porque estão de bota branca e batom.
E tem o detalhe que me deixou de queixo caído: elas ganham quase nada. Uma miséria. Dançam para oitenta mil pessoas no estádio, viram símbolo de uma marca bilionária, e no fim do mês o cachê não paga o boleto. Muitas têm um segundo emprego. Uma dava aula, outra era dentista. Salto mortal no domingo, canal no molar na segunda.
Eu, que passei a vida achando que esporte de homem era chutar bola e levantar peso, fiquei ali, humilde, aprendendo que manter um sorriso enquanto o corpo grita é uma modalidade olímpica que ninguém premia.
E aqui vem a parte engraçada. A Netflix também tem uma série sobre o time em si, os jogadores, o dono bilionário, os milhões, os capacetes. Comecei. Achei que fosse ser a minha, a de macho, a com placar.
Não me pegou. Homem gigante ganhando fortuna para correr com uma bola oval me deu um sono honesto. Já a menina chorando no corredor porque não passou no corte me segurou até três da manhã. Vai entender o coração.
Não é uma série para pensar. É uma série para desligar, dessas de derreter o cérebro depois de uma semana de reunião que podia ser e-mail. Você senta achando que vai dar dez minutos, e some. É futebol e novela ao mesmo tempo, com purpurina no lugar do sangue e um corte de elenco no lugar do pênalti.
Minha esposa, de vez em quando, me olhava de lado, se divertindo comigo. “Você tá torcendo mesmo, hein.” Eu tava. Sem vergonha nenhuma. Fazendo a minha aposta de quem passava, xingando a diretora que cortou a minha favorita, comemorando quando a novata de olho arregalado conseguiu a vaga.
No fim, é isso que eu levei: a gente passa a vida decidindo antes da hora do que vai gostar. Rotula, separa, diz “isso não é pra mim” com uma certeza que não merece ter. E aí a vida, ou a esposa com o controle remoto, coloca uma coisa na sua frente que era pra ser boba, e ela te ensina alguma coisa sobre esforço, sobre injustiça, sobre aguentar de sorriso no rosto.
Sentei pra desligar o cérebro e saí torcendo, de coração apertado, por meninas que fazem espacate no ar por um salário que não cobre o boleto. Se derreter o cérebro é isso, me passa mais um pote. E não conta pra ninguém que eu chorei no corte final.
