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Crônica · Correio literário

O aplauso que doeu

Sobre torcer pelo Brasil e ainda ter um cantinho argentino no peito

Sou brasileiro e torço pelo Brasil, que isso fique claro logo de cara. Mas tenho uma confissão pequena, dessas que a gente quase não diz em voz alta: um cantinho do meu peito, miúdo, bate pela Argentina.

Não é traição. É família. Corre um fio de sangue argentino aqui, e tinha, principalmente, o Tio Hico. Um tio muito especial, que já não está mais entre nós, mas que deixou em mim esse carinho teimoso por aquele país. Por causa dele, a Argentina nunca foi só a rival. Ela tem rosto. Tem sobrenome. Tem o Tio Hico.

Por isso, nas oitavas contra o Egito, eu me flagrei torcendo. Escondido, meio sem jeito, mas torcendo. E que jogo pra mexer com a gente.

Foi um velório interrompido. O Egito abriu dois a zero e, por quase a partida inteira, a Argentina esteve morta. Faltando pouco pro fim, qualquer um teria desligado a televisão. Mas a Argentina não sabe ser sensata. Quando parece enterrada, é quando fica mais perigosa. Nos minutos finais, veio a virada. Três gols quando ninguém mais esperava, o último quase no apagar das luzes, com o Messi no meio de tudo. Três a dois. No sufoco, no grito, na marra. Não foi bonito. Foi raça. E eu, no sofá, pensei no Tio Hico, naquela garra que era tão a cara dele.

Aí a comparação veio sozinha. E veio pesada.

Porque dias antes o Brasil tinha ido pra casa eliminado pela Noruega, e não foi só uma derrota. Foi um vexame. Um time com medo da própria sombra. Medo de errar, medo de arriscar, medo de tocar a bola pra frente. Recuava quando era pra atacar, empurrava a bola pro lado como quem passa um problema adiante. Foi covardia, e não tem palavra mais gentil. Ninguém quis a bola na hora que doía, ninguém puxou o time nas costas. E a nossa estrela seguiu no roteiro de sempre: rolando no gramado, catando falta, encenando uma dor que a câmera nunca achava, enquanto a vaga escorria pelo ralo. Enquanto a Argentina sangrava pra virar um jogo perdido, o Brasil se escondia atrás do VAR, do juiz, de qualquer coisa que não fosse a coragem de jogar.

“Tem carinho que a gente não escolhe. Herda.”

Dói dizer, mas é isso: naquela Copa, o time que jogou como o Brasil um dia jogou não estava vestindo a nossa camisa.

Então esse aplauso, Tio Hico, é seu. O senhor não está mais aqui pra ver, mas eu vi por nós dois. E juro que, quando o último gol entrou, eu senti o senhor comemorando junto, de algum lugar, do jeito argentino de comemorar, como se a vida inteira dependesse daquilo. Vamos, Argentina. Até esbarrar no Brasil, claro. O senhor me entende.