← Voltar às crônicas
Crônica · Correio literário

O áudio de três minutos

Sobre a bolha cinza que avança devagar e não pede licença

Sete da manhã. O celular vibra. Abro a conversa e lá está: uma barrinha cinza, comprida, com um número no canto que me arranca um suspiro antes do café. 3:12.

Três minutos e doze segundos. Alguém acordou, pensou em mim, e resolveu que a melhor forma de dizer bom dia era gravando um episódio de podcast.

Podia ter escrito. “Passa aqui hoje?” tem duas palavras. Levaria quatro segundos para digitar e um para eu responder. Mas não. A pessoa escolheu o áudio, e o áudio escolheu a mim.

Eu conheço o gênero. Todo mundo conhece.

Começa com um suspiro, como quem vai contar uma tragédia grega. Depois vem o “então”, que não liga a nada, porque nada foi dito antes. Vem um barulho de rua, um cachorro latindo, a pessoa cumprimentando o porteiro no meio da frase. Vem uma pausa longa, em que você jura que acabou, e não acabou. Vem o “né” repetido três vezes. E lá pelo minuto dois, finalmente, o assunto: o mesmo “passa aqui hoje?” que caberia numa linha.

“Áudio não é uma mensagem. É uma reunião marcada sem o meu consentimento.”

O problema não é a voz. A voz é linda, a voz é humana, a voz carrega o que a letra não carrega. O problema é o poder.

Quem manda áudio decide o meu tempo. Decide que os próximos três minutos da minha vida serão dedicados a segurar o telefone no ouvido, ou a procurar um fone, ou a fingir na frente dos outros que não estou ouvindo a intimidade de alguém em volume alto no busão. Texto eu leio na diagonal, em dez segundos, e sigo. Áudio me prende. Áudio é uma correntinha educada.

E tem a acústica social. Você não pode acelerar o áudio de uma pessoa querida sem uma pontinha de culpa, como se estivesse dizendo “fala mais rápido que eu tenho mais o que fazer que você”. Mas você acelera. Todo mundo acelera. Colocamos a tia em 1.5x e depois pedimos bênção.

Pior é a saga dos áudios em série. Não vem um de três minutos. Vêm sete de quarenta segundos, um atrás do outro, como se a pessoa estivesse pensando em voz alta e me usando de caderno. Cada um precisa ser aberto, ouvido, digerido. É uma novela em capítulos, e eu não escolhi assinar.

E o pior de todos: o áudio que responde a um texto. Eu escrevo, limpo, objetivo, “que horas?”. E volta uma nota de voz de dois minutos que, no fundo, no fundo, quer dizer “oito”. Você atravessou a ponte inteira para não usar a ponte.

Sinceramente? Eu entendo. Eu também mando. Às vezes estou de mãos ocupadas, às vezes é carinho mesmo, uma coisa que só cabe na voz. O áudio tem sua hora. Ele é ótimo para o “tô com saudade” que a letra deixa seco, para a risada que o “kkk” não alcança, para a história que precisa de entonação.

Só que a gente confundiu tudo. Virou o botão que aperta quando tem preguiça de pensar antes de falar. Empurramos para o outro o trabalho que era nosso: o de organizar a frase.

Ainda assim, toda vez que a bolha cinza aparece, eu suspiro, olho o número, calculo o custo. E aperto o play.

Porque no fim das contas eu quero saber. Quero a voz, o cachorro latindo, o porteiro no meio da frase, a tia que ainda não descobriu que dá para escrever. Reclamo dos três minutos, mas não deletaria nenhum.

Mando um texto de volta. Dá menos trabalho pra ele, e é a minha pequena, silenciosa, inútil vingança.