O dia que não passava
18 de agosto de 2026

Sobre o expediente que estica
Três e quarenta e sete.
Eu podia jurar que já eram quase cinco. Tinha feito duas reuniões, respondido trinta e um e-mails, resolvido um problema que ninguém sabia que existia e criado outro que todo mundo vai descobrir na sexta. Levantei, fui no café, voltei, fiz mais uma coisa, atendi uma ligação. Olhei pro canto da tela achando que ia ver a hora de arrumar as coisas.
Três e cinquenta e um.
Quatro minutos. Eu tinha vivido uma vida inteira em quatro minutos.
E o mais engraçado é que na semana anterior tinha acontecido o contrário. Sentei numa terça às nove da manhã, pisquei, e era seis e vinte. Seis e vinte. Não sei o que eu fiz naquele dia. Sei que fiz alguma coisa, porque tem prova: a caixa de entrada estava limpa, o Slack estava sem bolinha vermelha, alguém me agradeceu por algo. Mas se você me perguntar hoje o que aconteceu naquela terça, eu não tenho resposta. O dia foi debitado da minha conta e eu nem recebi o comprovante.
Então não é sobre trabalhar muito ou pouco. Isso é o que a gente conta pros outros, porque é a explicação que cabe no elevador. “Foi um dia corrido.” “Nossa, hoje voou.” Mentira das boas, dessas que ninguém checa.
O dia que voa não é o dia leve. O dia que voa é o dia em que você fez uma coisa só. Uma coisa comprida, chata talvez, mas uma. Você entrou nela e ela te levou. É tipo pegar carona: você não repara na estrada, você repara que chegou.
O dia que não passa é o dia picado. É o dia em que você fez quarenta coisas, e cada uma exigiu que você começasse de novo. Abre planilha, fecha planilha. Entra na call, sai da call. Responde uma mensagem, esquece o que estava fazendo, lembra, esquece de novo. Cada troca é um pedágio, e no fim do dia você não pagou com dinheiro, pagou com tempo, e ainda assim não saiu do lugar.
“Ninguém nunca olhou pro relógio num dia bom”
E tem o relógio, claro. O relógio é cúmplice.
Porque a gente só olha pra ele quando quer que ele ande. E ele sabe. Ele espera você olhar, faz uma cara de quem não vai a lugar nenhum, e fica ali. Você desvia o olhar por vinte minutos inteiros, cheios de acontecimentos, e volta pra descobrir que ele avançou três. Você faz a conta. Faltam duas horas e treze minutos. Você odeia saber disso.
No dia que voa, você nem lembra que existe relógio. Quando lembra, já é tarde, e tarde ali é uma boa notícia.
Tem também a variável do ar-condicionado no 22, do copinho de plástico, do colega que passa e pergunta se sextou numa quarta-feira. Tudo isso engorda o dia. O tédio no trabalho não é a ausência de tarefa, isso seria até um alívio. Tédio é ter tarefa demais e nenhuma delas te levar pra lugar nenhum. É remar num barco amarrado.
Aí bate cinco e meia e acontece a parte injusta.
Porque o dia que arrastou não te devolve nada em troca. Ele não te dá uma medalha, não te dá o dobro de salário, não conta como dois. Ele acaba na mesma hora que o outro, o que evaporou, o que você nem viu. Os dois valem uma linha idêntica na folha de ponto. A empresa não distingue. O sistema marca oito horas e pronto.
Fecho o notebook, junto as coisas, desço.
E na descida penso que talvez a conta seja essa: os dias que voam são os que eu vendi sem perceber, e os que arrastam são os únicos que eu efetivamente vi passar. Um custa caro. O outro custa mais caro ainda. E os dois acabam às seis.
