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Crônica · Correio literário

O tempo da febre

Sobre as horas que mudam de tamanho

Três da tarde de uma terça, deitado, olhando o teto.

Não era nada grave. Uma virose dessas que o médico nem batiza, você chega no posto, ele olha sua garganta com uma lanterninha, faz um barulho com a boca e manda repousar. Repousar. Como se fosse fácil.

Porque o que ninguém te conta é que ficar doente não é só o corpo doendo. É o tempo mudando de tamanho.

Eu fechei os olhos por um período que eu juraria ser uma hora e meia. Abri. Três e onze.

Onze minutos. Eu tinha atravessado um deserto em onze minutos.

E aí você começa a reparar nas coisas que só existem para quem está de cama. O ventilador de teto, que tem uma pá levemente torta e faz um tec a cada volta. A mancha do reboco em cima do guarda-roupa, que você nunca viu em quinze anos morando ali e que agora tem um formato, e o formato é claramente de um cachorro olhando para trás. A luz da janela andando devagar pela parede, que é o relógio mais honesto da casa e o mais cruel.

O doente vira arqueólogo do próprio quarto.

Mas o mais engraçado é a unidade de medida. Porque quando você está doente, o dia para de ser feito de horas. Passa a ser feito de doses.

De seis em seis horas. É esse o novo dia. Não existe mais manhã, tarde e noite, existe o comprimido que eu tomei e o comprimido que eu vou tomar, e entre um e outro tem uma coisa comprida e sem nome que eu preciso atravessar. Você olha o celular calculando não que horas são, mas quanto falta. Três e onze menos onze e quarenta, carrega um, sobram duas e meia. Duas horas e meia até o alívio químico. A aritmética do doente é a coisa mais precisa que existe no Brasil.

E tem outra coisa: quando criança, isso não era ruim.

Eu lembro do termômetro de vidro embaixo do braço, e da minha mãe segurando ele contra a luz e virando devagarzinho, procurando a linha prateada com a cara de quem lê um oráculo. Lembro da sopa. Lembro da televisão ligada num horário em que eu nunca via televisão, passando uns programas de gente que eu não sabia que existia. O dia de doente na infância era enorme, e enorme ali era bom. Era um dia extra, roubado do calendário, que ninguém ia me cobrar depois.

Alguém devia estudar em que ano exatamente o dia doente deixa de ser presente e vira dívida.

“Hora é uma medida de gente saudável”

E não é só a febre, claro. Tem uma lista inteira de ocasiões em que o tempo resolve mudar de velocidade e não pede licença.

Os cinco minutos do micro-ondas, que são cinco minutos de verdade e parecem quarenta. O carro do aplicativo que está a dois minutos há sete. A sala de espera do resultado do exame, onde o tempo não anda nem para trás nem para frente, fica só ali, de pé, olhando para você. O domingo às sete da noite, que dura mais do que todo o sábado. A ligação em espera com aquela musiquinha e a moça dizendo que a sua ligação é muito importante para eles, o que, depois do quinto loop, soa menos como informação e mais como ameaça.

E aí, do outro lado, tem as ocasiões em que ele some.

O almoço de domingo na casa da minha avó, que começava ao meio-dia e acabava sempre imediatamente. As férias, que têm sete dias na ida e dois na volta. A conversa boa que começou às nove e agora são duas da manhã e amanhã tem reunião. O abraço de despedida no aeroporto, que a gente sempre acha que deu tempo de fazer direito e nunca dá.

Não é o relógio que varia. É a nossa atenção que tem peso.

Quando a vida está boa, a gente não olha para o tempo, e ele aproveita a distração para ir embora. Quando a vida trava, a gente encara ele de frente, e ele não sai do lugar, porque é isso que as coisas fazem quando estão sendo observadas.

O doente é a pessoa mais atenta do mundo. É por isso que o dia dele não acaba nunca.

Melhorei na quarta. Tomei banho, comi comida de gente, voltei a olhar tela. E o tempo voltou ao normal, que é o jeito educado de dizer que ele voltou a sumir.

Passei a vida inteira pedindo mais tempo. E não é que a febre me deu? Deu tudo, de uma vez, sem desconto: duas tardes inteiras, minuto por minuto, devagar o bastante para eu ver o tamanho exato do que eu andava pedindo. Sarei agradecendo e nunca mais pedi.