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Crônica · Correio literário

Obrigado, Noruega

Sobre a eliminação de ontem, o alívio de hoje, e uma era que se recusava a terminar

Ontem o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo. Pela Noruega. Um país de cinco milhões de habitantes, mais famoso por salmão, fiordes e por não ver o sol durante metade do ano. Escreve aí, para os netos: fomos eliminados pela terra do bacalhau.

O país amanheceu de luto. Bandeira a meio-mastro no coração. Grupos de família em silêncio, aquele silêncio pesado de quem enterrou alguém. E eu, confesso, acordei diferente. Acordei leve. Acordei com uma vontade estranha e teimosa de agradecer.

Obrigado, Noruega.

Porque a eliminação de ontem não encerrou apenas uma Copa. Encerrou uma era. A era em que a gente assistia a futebol de dedos cruzados, rezando para o camisa 10 não cair. E ele caía. Ah, como caía. Rolava. Girava. Dava sete voltas no gramado carregando uma dor que a câmera nunca conseguia localizar. Levantava intacto trinta segundos depois, ileso, como quem ressuscita por contrato publicitário.

Foram anos assim. Anos de “agora vai”. Anos de “a próxima é nossa”. Anos de corte de cabelo novo a cada fase de grupos, de festa de aniversário com lista de convidados maior que a escalação, de propaganda de banco, de operadora, de video game, de tudo, menos de gol em jogo que valia.

A gente confundiu talento com novela. E a novela, como toda boa novela brasileira, se arrastou umas quinze temporadas além do necessário.

Aí veio a Noruega. Um time praticamente de um homem só, um loiro de dois metros que corre pelo campo como quem foge de um alce e que não sabe cavar falta, porque na Noruega ninguém tem tempo para teatro. Está frio lá, tem que resolver logo. Chutou, fez, foi embora agradecer a torcida. Eficiência escandinava. Nos eliminou sem drama, sem choro, sem close emocionado na arquibancada.

“Tem derrota que liberta mais do que muita vitória.”

E é isso que ninguém quer admitir hoje, de luto, com a camisa amarela ainda pendurada no varal da esperança. Que talvez a gente precisasse disso. De um tombo seco, sem holofote, aplicado por um país que nem sabia que era nosso carrasco.

Então obrigado, Noruega. Vocês não levaram a nossa Copa. Vocês nos devolveram o futebol. Aquele que a gente amava antes de ele virar comercial de trinta segundos. A era acabou. E, pela primeira vez em muito tempo, dá quase vontade de torcer de novo.