Queria que o meu time jogasse sujo
15 de julho de 2026

Uma confissão que nenhum torcedor romântico quer fazer em voz alta
Juro que essa é quase a última. A Copa do Mundo está acabando, e com ela essa minha temporada acidental de cronista de futebol. Semana que vem a gente volta ao de sempre, às bobagens do cotidiano, aos livros, à vida fora das quatro linhas. Mas a Copa ainda me deve um último texto, e ele é sobre a Argentina. De novo, eu sei. Me perdoa, mas é que eles não me deixam calado.
A Argentina joga sujo. Pronto, falei. Todo mundo sabe e ninguém tem coragem de admitir que, no fundo, admira. Eles fazem cera como quem pratica um ofício antigo. Caem, se contorcem, ganham tempo. Provocam, cutucam, tiram o adversário do sério antes mesmo do apito. Dão aquela falta tática cínica, calculada, na hora exata, pra cortar o contra-ataque e levar só o amarelo que já valeu a pena. É desleal? É. É feio? Muitas vezes. Mas funciona.
E tem uma coisa neles que vai além da malandragem, e é a parte que eu mais invejo: a Argentina se recusa a perder. Não é força de expressão. É um traço de caráter, coletivo, quase teimoso. Eles brigam até o último segundo, com unha, com dente, com o que tiver na mão. Hoje mesmo foi mais uma virada, dessa vez em cima da Inglaterra, pra carimbar mais uma final de Copa do Mundo. A terceira final em quatro Copas. Enquanto o resto do mundo aceita que perdeu, a Argentina continua achando que ainda dá tempo. E, na maioria das vezes, dá.
E aqui vem a parte que me envergonha. Eu queria que o meu time jogasse assim.
Porque o Brasil de hoje não joga nem bonito nem feio. Joga sem vontade. Entra em campo morno, sem fome, sem alma, como quem cumpre tabela. E o pior nem foi a eliminação em si. Foi a desconexão que veio depois, aquele silêncio estranho entre a seleção e o povo, como se um não devesse mais nada ao outro. A imagem que me ficou foi a da nossa estrela que, enquanto o país engolia a derrota, nem se deu ao trabalho de voltar pra casa. Estava numa mesa de pôquer em Las Vegas. Diz tudo.
O meu Athletico é um caso curioso. Já chamaram o Furacão de o time mais argentino entre os brasileiros, e no jeito de jogar tem razão: ele joga feio quando precisa, é pragmático, é chato de enfrentar, faz o jogo que dá vitória e não o que dá aplauso. Essa parte ele tem, e eu recebo o apelido como elogio. Mas falta o principal, o mesmo que falta à seleção: a garra. Aquela recusa teimosa de aceitar a derrota. O Athletico até sabe jogar sujo, mas ainda sabe perder. E é bem aí, nessa recusa, que a Argentina joga num campeonato à parte.
Porque a verdade dura é que futebol não premia caráter. Premia quem ganha. O troféu não vem com etiqueta de fair play. Vem com o nome de quem fez o que era preciso fazer.
“Tem time que perde. A Argentina apenas se recusa.”
E se a virada de hoje tem um culpado com nome e sobrenome, ele atende por Thomas Tuchel. A Inglaterra tinha o jogo na mão, controlava tudo, e escolheu o pior caminho possível: recuou, se encolheu, começou a rezar pelo apito em vez de matar o jogo. Um time sem-vergonha, cagão, que preferiu proteger a vantagem a ir buscar a sentença. E quando você joga com medo contra quem não sabe perder, o roteiro é sempre o mesmo. A Argentina só precisou esperar. Essa derrota é inteirinha do Tuchel, que agora tem o resto da vida pra se explicar.
Eu sei que, no papel, devia torcer pela beleza, pelo jogo limpo, pelo gesto nobre. Mas eu já vi o meu país ser nobre e derrotado vezes demais. Cansei.
Então fica a confissão, sem orgulho nenhum: o que eu queria pro meu Furacão e pra nossa seleção não é o gol bonito nem o troféu de bom moço. É a única coisa que falta aos dois e sobra na Argentina: a recusa de perder. Aquela teimosia de brigar até o fim, de achar que sempre dá tempo, de não aceitar o apito como sentença. Que os românticos me perdoem, mas eu já vi os meus times saírem de campo bonitos e derrotados vezes demais. Da próxima, eu só quero que eles se recusem. Do jeito deles.
