Tudo bem?
29 de setembro de 2026

Sobre a solidão que não precisa de quarto vazio
Eu achava que solidão tinha cenário.
Quarto escuro. Domingo às sete da noite. Um prato só numa mesa de quatro lugares. Aquela coisa de filme, com chuva escorrendo na janela e alguém olhando para um telefone que não toca.
Demorei pra entender que ela não precisa de nada disso. Não precisa de espaço vazio, não precisa de silêncio, não precisa nem que você esteja sozinho. A solidão é discreta. Entra junto no elevador lotado, senta do seu lado na reunião, pega a fila do almoço com você. E ninguém repara, porque ela se veste igualzinho a todo mundo.
Tem uma palavra que eu digo umas trinta vezes por dia.
Tudo.
Tudo bem? Tudo. E você? Tudo também.
O porteiro, o colega da máquina de café, minha mãe no telefone, o moço da padaria, o conhecido que eu encontro no corredor do mercado depois de dois anos. Tudo, tudo, tudo. É o nosso aperto de mão falado. Ninguém pergunta querendo saber, ninguém responde querendo contar. É senha de Wi-Fi: você digita, a porta abre, ninguém lê o que você digitou.
E funciona. O problema é que funciona bem demais.
Porque tem dia em que o “tudo” é mentira, e a mentira passa sem ninguém conferir. Você diz “tudo” com a voz um pouco mais baixa, com o sorriso um pouco mais curto, e a pessoa diz “que bom” e segue. Não por maldade. É que ela também tem as trinta vezes dela pra cumprir até o fim do dia.
E ninguém é culpado disso. Talvez seja essa a parte mais difícil. Se tivesse um vilão, pelo menos dava pra ficar bravo com alguém.
Nunca estive tão acompanhado, aliás. Tenho o grupo da família, o grupo da família sem os tios, o grupo do trabalho, o grupo do trabalho sem o chefe, o grupo do futebol que não joga futebol desde 2019. O celular vibra o dia inteiro. Trezentas e poucas mensagens não lidas, e nenhuma delas pra mim.
Eu sei o que meu amigo almoçou ontem, porque ele postou. Não sei se ele anda dormindo. Sei que minha prima trocou de emprego, porque o LinkedIn fez questão de avisar. Não sei se ela está feliz. A gente sabe tudo uns dos outros, menos o que importa.
Virou um monte de gente se cumprimentando pela janela do ônibus. Todo mundo acenando. Ninguém descendo.
“Solidão não é falta de gente. É falta de testemunha.”
E aqui eu preciso ser honesto, porque seria muito confortável terminar esta crônica reclamando dos outros.
Eu também não desço do ônibus.
Eu também escuto o “tudo” do outro e deixo passar, mesmo quando a voz veio mais baixa. Reajo com o polegar. Mando figurinha. Escrevo “kkkkk” com a quantidade de k proporcional ao carinho, e acho que isso conta como presença. Em almoço de família e mesa de bar, eu sou especialista em rir na hora certa, que é o jeito mais educado que existe de não estar ali.
Então a solidão no meio das pessoas não é só uma coisa que fazem com a gente. É uma coisa que a gente faz junto. Um combinado. Eu não pergunto de verdade, você não responde de verdade, e ninguém precisa carregar o peso de ninguém. É muito prático. E é muito frio.
O antídoto, desconfio, é ridiculamente pequeno.
É perguntar duas vezes.
“Tudo bem?” “Tudo.” “Não, sério. Tudo bem mesmo?”
Essa segunda pergunta muda a sala. Ela avisa que você ouviu a primeira resposta e não acreditou. Que você tem uns minutos. Que a senha do Wi-Fi, desta vez, alguém vai ler.
Pouca gente pergunta a segunda vez. Eu sei porque eu quase nunca pergunto.
A vida inteira eu conheci muita gente que me perguntou se estava tudo bem. Pouquíssima que perguntou de novo. Acho que é hora de parar de contar quantas dessas eu tive e começar a contar quantas dessas eu fui.
