Tudo que é sólido desmancha no ar
04 de julho de 2025

Uma crônica sobre sofás que evaporam e a instabilidade leve do cotidiano moderno
Marx disse isso sobre o capitalismo. Bauman reciclou a ideia na modernidade líquida. Mas foi no meu apartamento que a frase finalmente fez sentido.
Foi num domingo de sol que o sofá sumiu. Estava lá no canto da sala, como sempre. Bege, meio torto, cheio de história e farelos de bolacha. Mas sumiu. Evaporou. Puf.
No início, achei que fosse distração. Talvez tivesse ido parar no quarto, na cozinha ou, quem sabe, dado um pulinho até o mercado. Mas não. O sofá havia se desmanchado no ar. Literalmente.
“Tudo que era firme, fixo e confiável começou a se desfazer. Inclusive minha paciência.”
Na terça, foi à geladeira. Na quarta, a estante de livros. Na quinta, uma tia-avó.
Tudo o que era sólido na minha casa. Móveis, memórias, móveis com memórias, tudo começou a se dissolver como algodão-doce em boca de criança.
Pedi ajuda.
A vizinha sugeriu feng shui. Um amigo falou em uma praga hereditária. Minha terapeuta disse que era simbólico. Aparentemente, tudo que eu construí estava perdendo sentido. Virei uma metáfora ambulante e nem percebi.
No domingo seguinte, o chão deu uma fraquejada. Tive que andar na pontinha dos pés pra não cair no abismo que se abriu no corredor.
Na segunda, resolvi encarar a realidade. Fui até o espelho. Olhei bem fundo nos olhos de quem restava ali. E, sem aviso, o espelho também evaporou.
Fiquei sem sofá, sem geladeira, sem passado e sem reflexo. Mas ainda com café, porque, felizmente, ideias absurdas não evaporam tão fácil.
Então sentei no ar, preparei um café imaginário e escrevi essa crônica. Antes que o papel e a caneta sumissem também.
