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Crônica · Correio literário

Tudo que é sólido desmancha no ar

Uma crônica sobre sofás que evaporam e a instabilidade leve do cotidiano moderno

Marx disse isso sobre o capitalismo. Bauman reciclou a ideia na modernidade líquida. Mas foi no meu apartamento que a frase finalmente fez sentido.

Foi num domingo de sol que o sofá sumiu. Estava lá no canto da sala, como sempre. Bege, meio torto, cheio de história e farelos de bolacha. Mas sumiu. Evaporou. Puf.

No início, achei que fosse distração. Talvez tivesse ido parar no quarto, na cozinha ou, quem sabe, dado um pulinho até o mercado. Mas não. O sofá havia se desmanchado no ar. Literalmente.

“Tudo que era firme, fixo e confiável começou a se desfazer. Inclusive minha paciência.”

Na terça, foi à geladeira. Na quarta, a estante de livros. Na quinta, uma tia-avó.

Tudo o que era sólido na minha casa. Móveis, memórias, móveis com memórias, tudo começou a se dissolver como algodão-doce em boca de criança.

Pedi ajuda.

A vizinha sugeriu feng shui. Um amigo falou em uma praga hereditária. Minha terapeuta disse que era simbólico. Aparentemente, tudo que eu construí estava perdendo sentido. Virei uma metáfora ambulante e nem percebi.

No domingo seguinte, o chão deu uma fraquejada. Tive que andar na pontinha dos pés pra não cair no abismo que se abriu no corredor.

Na segunda, resolvi encarar a realidade. Fui até o espelho. Olhei bem fundo nos olhos de quem restava ali. E, sem aviso, o espelho também evaporou.

Fiquei sem sofá, sem geladeira, sem passado e sem reflexo. Mas ainda com café, porque, felizmente, ideias absurdas não evaporam tão fácil.

Então sentei no ar, preparei um café imaginário e escrevi essa crônica. Antes que o papel e a caneta sumissem também.