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Resenha · Diário de leitura

“As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles

Capa de As Meninas
Livro
As Meninas
Autor
Lygia Fagundes Telles
Nota
★★★★★

Um livro que cansa de propósito

Terminei As Meninas com a sensação de ter brigado com o livro e perdido a briga. E com a impressão incômoda de que perder era o combinado desde o começo.

O terreno é simples de descrever: três mulheres dividindo um quarto num pensionato de freiras em São Paulo, no começo dos anos 70, com o país debaixo da ditadura militar. Simples só na descrição. A partir daí a Lygia solta a narração dentro da cabeça das três, uma de cada vez, sem avisar quando troca, sem arrumar a bagunça pra você.

É cansativo. É confuso. Em vários momentos eu não sabia na cabeça de quem estava, nem se aquilo tinha acontecido ou se era lembrança, ou vontade, ou mentira que a personagem contava pra si mesma. Minha primeira reação foi achar que o livro estava me fazendo trabalhar demais.

Depois caiu a ficha de que esse era o livro inteiro.

Um país onde não se pode dizer as coisas não produz gente que pensa com frase limpa e parágrafo arrumado. Produz exatamente isso: pensamento que se interrompe, memória que não fecha, conversa que desvia. A forma do livro é a forma da cabeça de quem vive com medo. Quando entendi isso, parei de brigar.

E aí vem o que mais me pegou. As três são três saídas diferentes para o mesmo país, e o livro tem a coragem de não aprovar nenhuma delas. Uma se tranca na vida interior, nos próprios sentimentos, numa espera que dura o livro todo, e a alienação dela é confortável e é um privilégio de classe. Outra escolhe a luta, e o livro não transforma isso em heroísmo bonito, mostra o custo e a dúvida. A terceira se destrói, e a destruição dela é a mais concreta de todas, porque é a única que não tinha de onde cair.

Nenhuma das três está salva. Esse é o veredito da Lygia sobre aquele Brasil, e ela entrega sem discurso, só distribuindo três vidas na mesma cama de solteiro.

“Num país onde não se pode dizer, escrever bem é escrever o que não foi dito.”

O subtexto é a parte mais impressionante do livro, e é também a mais difícil de elogiar sem soar acadêmico. Escrito em 1973, ele não podia nomear o que estava nomeando. Então a violência do Estado aparece de lado, em segunda mão, no que uma personagem conta que ouviu, no que a outra não termina de falar. O livro ensina o leitor a ler o buraco. Você vai percebendo que o importante está sempre fora do quadro.

Só que isso me deixou com um incômodo que não passou. É muito fácil ler esse subtexto hoje, com o manual na mão e o final da história já conhecido. Quem leu em 73 estava lendo no escuro, sem saber o que ia acontecer com o país nem com as pessoas que escreviam assim. A gente se acha esperto por decifrar o código de uma época em que ele era perigoso. Reparar nisso me tirou qualquer vontade de bater palma pra mim mesmo.

Então por que quatro e não cinco. Porque entender que o cansaço é proposital não faz o cansaço ir embora. Tem trechos em que a confusão passa do ponto e deixa de comunicar qualquer coisa, virando só confusão. Eu voltei páginas sem ganhar nada com isso mais de uma vez, e acho que uma parte disso é o livro cobrando mais do que estava disposto a devolver.

Mas é um daqueles livros que ficam trabalhando depois que acabam. Faz dias que eu fechei e continuo pensando nas três, principalmente na que achei mais irritante durante a leitura inteira e que agora me parece a mais honesta das três.

Quatro estrelas para um livro que me cansou de propósito e que eu não teria entendido se não tivesse cansado. É um retrato de um país que não deixava ninguém pensar direito, escrito do único jeito que dava pra escrever na época: sem dizer, deixando a gente ouvir.