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Resenha · Diário de leitura

“Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes”, de Douglas Adams

Capa de Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes
Livro
Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes
Autor
Douglas Adams
Nota

Douglas Adams se distraiu no meio do caminho

Entrei nessa por teimosia. Decidi ler a série do Mochileiro inteira, na ordem, sem pular nenhum, e é o tipo de decisão que parece genial nos dois primeiros livros e começa a cobrar juros lá pelo quarto. Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes é o quarto. E foi, até agora, o que menos me pegou.

A premissa até que é boa de contar. Arthur Dent volta para a Terra depois de anos sendo jogado pelo universo e encontra a Terra ali, inteira, girando como se nunca tivesse sido demolida para abrir espaço para uma via expressa intergaláctica. Ninguém comenta o assunto. O planeta simplesmente voltou. O que sobrou de lembrança coletiva é uma tal alucinação em massa que todo mundo prefere não discutir, e o sumiço dos golfinhos, que foram embora deixando um bilhete de agradecimento.

A partir daí o livro vira outra coisa: uma história de amor. Arthur conhece Fenchurch, uma mulher que teve um estalo sobre o que exatamente está errado com o mundo e perdeu esse estalo no segundo exato em que a Terra explodiu. Os dois se enroscam, aprendem a voar, e é tudo muito fofo.

Fofo. Essa é a palavra, e é meio esquisito usar ela num livro do Douglas Adams.

Agora, o que me incomodou. A série inteira é non sense, eu sei, é pra ser mesmo. Mas até aqui o non sense do Adams tinha engenharia por trás. O peixe babel é absurdo e funciona dentro da própria lógica. O 42 é a maior piada já escrita sobre ciência justamente porque o que se perdeu foi a pergunta. A Propulsão de Improbabilidade Infinita transforma o acaso em motor de enredo. Havia método na loucura.

Aqui, não. Aqui as coisas acontecem porque sim. A Terra voltou porque voltou. O que Fenchurch descobriu sobre o mundo? Você não vai saber. Os golfinhos? Melhor nem perguntar. O livro não constrói o absurdo, ele declara o absurdo e segue em frente assobiando.

“Non sense com régua é piada. Non sense sem régua é só a história não querendo se explicar.”

E tem o elenco. Zaphod some. Trillian some. Ford aparece o suficiente pra você lembrar que gosta dele e some também. Sobra o Arthur, que é o personagem mais passivo dos cinco e nunca foi o motor de graça nenhuma. O livro é curto e, mesmo assim, dá pra sentir ele se arrastando em alguns trechos. Isso é uma proeza meio triste.

O que salva é a reta final. A viagem pra ver a Mensagem Final de Deus à Sua Criação é lindíssima, e a mensagem em si é uma das melhores piadas que o Adams escreveu na vida, daquelas em que você ri e depois fica quieto uns segundos. E o Marvin, meu Deus, o Marvin. A despedida dele é a coisa mais bonita do livro e talvez de toda a série. Um robô deprimido me deu um nó na garganta que a história de amor inteira não conseguiu dar.

Vou continuar, claro. Falta um e eu não largo coleção pela metade. Mas se alguém me perguntar por onde começar o Mochileiro, com certeza não é por aqui. E se alguém quiser pular um da série, já sei bem qual indicar.

Três estrelas honestas: uma pro Marvin, uma pra última página e uma pro Douglas Adams num dia meio mole, que mesmo assim é mais engraçado do que muita gente no melhor dia.