“Devoradores de Estrelas”, de Andy Weir
17 de setembro de 2026

- Livro
- Devoradores de Estrelas
- Autor
- Andy Weir
- Nota
- ★★★★★
O mesmo filme, agora com o dever de casa feito
Cheguei nele ao contrário do normal: vi o filme primeiro, adorei, e fui atrás do livro pra descobrir o que tinham cortado. Tinham cortado bastante.
O filme tem uma pegada infanto-juvenil fofinha, meio aventura de sábado à tarde, e eu comprei isso na hora, sem resistência nenhuma. O livro tem essa mesma alma, a mesma piada boba, o mesmo coração no lugar certo. Só que com o pé muito mais firme na ficção científica. É como se alguém tivesse pegado a versão do cinema e devolvido todas as contas que ficaram de fora.
A premissa você provavelmente já sabe: um sujeito acorda sozinho numa nave, sem lembrar quem é nem o que foi fazer ali, com dois colegas de tripulação mortos na cabine ao lado. Lá fora, alguma coisa está comendo a luz do Sol, e a humanidade tem prazo de validade. A memória volta aos pedaços, junto com a explicação de como um professor de ciências do ensino fundamental acabou virando a última esperança do planeta.
Essa é a chave do Andy Weir e ele não disfarça: o herói não salva o mundo na porrada, salva no dever de casa. Mede, erra, anota, testa de novo. A tensão vem de uma conta que não fecha. E funciona, porque ele te ensina o suficiente pra você acompanhar o raciocínio e se sentir esperto junto, sem nunca virar aula.
E aí aparece o Rocky, que é o motivo pelo qual esse livro fica na cabeça da gente. Não vou estragar nada, o filme também não esconde. Só vou dizer que a melhor parte não é a ciência, é ver duas criaturas que não têm absolutamente nada em comum construindo um jeito de se entender do zero, palavra por palavra, e virando amigas no meio do caminho. É bobo, é fofo, é a coisa mais bonita do livro, e num romance sobre o fim do mundo isso é uma escolha e tanto.
“A ciência é a desculpa. O livro mesmo é sobre dois estranhos aprendendo a conversar.”
Agora, não é um suprassumo e ele nem finge que é. A estrutura é uma fórmula, e a fórmula aparece: surge um problema, o protagonista faz a conta, resolve, e o problema seguinte já bate na porta. Umas quatro ou cinco voltas nesse carrossel e você começa a ver o mecanismo por trás.
Os personagens da Terra também são de papelão. Tem uma administradora do projeto com poder absoluto sobre o planeta inteiro, que existe basicamente pra destravar qualquer coisa que a trama precise destravar. Sempre que o livro volta pros flashbacks na Terra, ele perde a graça que tem lá em cima. E o humor, que é o charme da coisa, é mais ou menos a mesma piada trocando de roupa do começo ao fim. Não incomoda, mas depois de um tempo você já sabe o formato.
Mesmo assim eu me diverti do início ao fim. Li rápido, li por vontade, dei risada sozinho mais de uma vez e no fim fiquei com aquele aperto bom que só livro que você gostou consegue dar. Se você viu o filme e achou que era só uma fofurinha espacial, o livro é a versão que leva a própria premissa a sério sem perder a leveza.
Quatro estrelas por um livro que não quer ser grande coisa e acerta exatamente o que se propôs. Passatempo dos bons não é elogio pequeno, não. Passatempo dos bons é o que faz a gente voltar a ler por prazer e não por disciplina.
