“Oração para Desaparecer”, de Socorro Acioli
06 de julho de 2026

- Livro
- Oração para Desaparecer
- Autor
- Socorro Acioli
- Nota
- ★★★★★
O mistério como isca, e a melhor que existe
Eu já conhecia a Socorro Acioli. Tinha lido A Cabeça do Santo e saído de lá com aquela sensação boa de quem encontrou uma contadora de histórias de verdade, dessas que plantam um pé no chão do sertão e outro no sobrenatural, sem pedir licença. Fui pra Oração para Desaparecer confiando. Saí completamente rendido.
O livro abre com uma mulher que não sabe quem é. Cida não tem memória, não tem passado, não tem nome que preste. Chegou de algum lugar, num lugar estranho, e tudo o que lhe resta como chão firme é a língua portuguesa. A partir dessa mulher que quase se apaga, a Socorro vai puxando outros fios: Jorge, que se apaixona pela estrangeira misteriosa; Joana, que é quase o fantasma de um amor antigo; Miguel. Quatro vidas que se cruzam no tempo, cada uma atrás de resposta pra própria angústia.
E foi exatamente aí que o livro me pegou. Pelo mistério. A Socorro tem um talento raro de abrir uma pergunta em cada capítulo e responder outra, sempre te deixando com uma dívida de curiosidade que só a próxima página paga. Você não lê essa história. Você persegue.
O melhor é que nada disso é truque barato. Por baixo do mistério tem ancestralidade, tem pertencimento, tem magia que soa antiga de verdade. A trama nasce de fatos reais de Almofala, no Ceará, daquela igreja que ficou soterrada pelas dunas por quase cinquenta anos e depois ressurgiu, como se a própria terra guardasse segredos e resolvesse devolvê-los na hora certa. Brasil e Portugal se costuram na história como duas margens do mesmo rio.
A escrita ajuda a prender. É limpa, com ritmo, sem enfeite à toa. A Socorro confia na força do que está contando e não precisa gritar. Quando percebi, já estava dentro, torcendo pra que aquelas quatro pessoas se encontrassem e, ao mesmo tempo, com medo de que o livro acabasse.
“Tem história que a gente não lê. A gente persegue.”
Se eu fosse implicar com alguma coisa, diria que os saltos no tempo pedem atenção, e quem gosta de tudo mastigado talvez estranhe no começo. Mas isso, pra mim, é elogio disfarçado. O livro respeita a inteligência de quem lê.
Nota cheia, sem pestanejar. Oração para Desaparecer é pra quem gosta de mistério com alma, de realismo mágico feito aqui, com sotaque do Nordeste, e de histórias que ainda acreditam que uma boa pergunta vale mais que uma resposta pronta. Fecha o livro e ele continua acontecendo dentro da gente.
