“Pedro Páramo”, de Juan Rulfo
07 de julho de 2026

- Livro
- Pedro Páramo
- Autor
- Juan Rulfo
- Nota
- ★★★★★
Um clássico que arrepia sem precisar gritar
Cheguei a Pedro Páramo pela fama. É daqueles livros finos que carregam uma lenda muito maior que o próprio tamanho. Dizem que o García Márquez sabia trechos de cor, que foi essa pequena obra mexicana que acendeu o pavio de todo o realismo mágico que veio depois. Fui com o pé atrás, meio cansado de clássico que promete demais. Saí arrepiado, e é isso que eu vim contar.
A história parece simples, e é aí que mora a armadilha. Juan Preciado promete à mãe, no leito de morte, que vai até Comala procurar o pai que nunca conheceu, um tal de Pedro Páramo. Ele vai. E é aqui que eu paro, pra não estragar. Digamos apenas que Comala não é bem uma cidade de vivos, e que, dali em diante, o Rulfo vai dissolvendo o chão embaixo dos seus pés sem que você perceba.
O que me pegou foi o tom. O livro fala de morte com uma calma que assusta mais do que qualquer susto. Fala de solidão com poesia, de abandono com uma delicadeza que dói. E faz uma coisa que eu nunca tinha visto tão bem feita: transforma o silêncio em personagem. Comala é um lugar de sussurros, de vozes que não deviam mais estar falando, e a gente vai entendendo aos poucos que está lendo um coro de gente que já foi.
No meio disso tudo está o Pedro Páramo, o dono de tudo e de todos, o homem que mandou na vida e na morte daquela terra. Um tirano movido por uma obsessão amorosa que atravessa o livro inteiro. É impressionante como o Rulfo constrói um sujeito inteiro, e uma cidade inteira, em tão poucas páginas.
Agora, não vou mentir: não é uma leitura fácil. A narrativa é fragmentada, salta no tempo, troca de voz sem avisar. Tem hora que você não sabe quem está falando, se é passado ou presente, se é vivo ou morto. Me peguei voltando páginas, relendo trechos, montando o quebra-cabeça no escuro. Pra quem gosta de tudo mastigado, pode ser frustrante. Pra mim, depois que a ficha cai, isso vira parte do feitiço. Mas é o que segura a minha nota em quatro, e não em cinco: o livro pede uma entrega que nem todo dia a gente tem.
“Ele fala de morte com calma, de solidão com poesia, e transforma o silêncio em personagem.”
Vale cada página, mesmo assim. Talvez principalmente por isso. Pedro Páramo não entrega tudo de bandeja, mas o que ele deixa fica ecoando por dias.
É daqueles livros que não acabam quando a gente fecha. Recomendo pra quem tem paciência e gosta de literatura que confia na inteligência de quem lê, pra quem não tem medo de se perder um pouco antes de se encontrar. Se você topar entrar em Comala, prepara o coração. De lá, ninguém sai igual.
