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Resenha · Diário de leitura

“Viúva de Ferro”, de Xiran Jay Zhao

Capa de Viúva de Ferro
Livro
Viúva de Ferro
Autor
Xiran Jay Zhao
Nota
★★★★★

Uma premissa excelente que cansa antes do fim

Tem livro que te ganha na contracapa, e esse me ganhou. A ideia é a seguinte: para lutar contra as criaturas que cercam o país, pilotam-se robôs gigantes, e cada robô precisa de um piloto homem e de uma piloto mulher. A mulher entra como concubina e costuma sair morta, porque o esforço mental da pilotagem drena ela e não ele. As meninas vão sendo consumidas. Aparecem os cartazes de recrutamento, as famílias entregam as filhas, e o país segue tocando a guerra com esse arranjo, achando tudo muito normal.

É uma imagem tão boa que quase dispensa a história. Uma sociedade inteira organizada para queimar meninas como combustível, e todo mundo de acordo.

A protagonista entra nesse esquema de propósito. Ela se voluntaria para virar concubina piloto com um plano na cabeça: matar o piloto que matou a irmã dela. E aí o livro descobre o que tem nas mãos, porque ela não morre. Ela sai de lá viva, e uma mulher que sobrevive ao que deveria ter matado ela vira um problema político do tamanho do mundo.

A primeira metade é fúria pura. Eu li grudado. O que a Xiran Jay Zhao faz de melhor ali é não deixar o feminismo virar tema de redação: é tudo concreto, tudo na carne. Os pés enfaixados da protagonista doem na página, a família trata ela como estoque, e a lógica que justifica o sacrifício das meninas é apresentada com aquela naturalidade tranquila de discurso oficial, que é o jeito mais assustador de apresentar qualquer barbaridade. Isso o livro acerta em cheio, e acerta com raiva. Fiquei genuinamente animado, esperando o estrago que estava por vir.

“É fácil escrever sobre injustiça. Difícil é escrever a injustiça com a cara de quem acha que está tudo certo.”

O problema é que, mais ou menos na metade, a coisa muda de mãos.

O livro vai ficando óbvio. Você lê uma cena e já sabe a próxima, lê uma revelação e percebe que ela tinha sido anunciada duas vezes antes. Cada reviravolta chega com aviso prévio. E o que mais me incomodou é que a premissa, aquela ideia enorme que me fisgou no começo, vai saindo de cena aos poucos: ela vira pano de fundo para outras coisas, e a história que sobra não é nem de longe tão interessante quanto o mundo que ela criou.

É uma sensação estranha de decepção, porque não é que fique ruim. É que fica comum. Aquela máquina de moer meninas, que era o coração do negócio, acaba servindo de cenário para um enredo que eu já vi em muito lugar. E o final aposta alto num gancho, porque é o primeiro de uma série, o que resolve o problema do próximo volume mas não resolve o desse aqui.

Vale a pena? Vale, e eu não estou dizendo isso por educação. A primeira metade faz um estrago que sozinha já justifica a leitura, e é um livro que provoca conversa, principalmente com quem acha que ficção para jovem adulto não dá conta de assunto sério. Dá, e essa dá com sangue no olho.

Três estrelas para um livro que começou me devendo nada e terminou me devendo a segunda metade. A ideia era grande demais para acabar previsível daquele jeito.